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novembro 2016

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Comportamento, Geral, Reflexão

QUE NÃO SEJA EM VÃO

Essa semana tive muita dificuldade para escrever o artigo da semana. Nenhum assunto, falta de inspiração…Queria escrever sobre algo alegre.

Eis que hoje somos sacudidos por uma tragédia. Um acidente aéreo que num instante muda a vida de tantas pessoas. Todos nós fomos tocados de alguma forma. A morte que nos parece prematura sempre choca. Um time inteiro de futebol, esse esporte que tanto emociona pessoas pelo mundo todo e a nós, brasileiros, muito especialmente.

Aos familiares, amigos e colegas das vítimas resta a perplexidade, a sensação de incredulidade, a dor indescritível. Dor acrescida da espera por poder receber seu amado para a última homenagem, para a despedida. Parece que não há nada a ser dito que possa de alguma forma trazer consolo ou alívio. Silêncio, respeito e oração é o que posso oferecer.

Após a perplexidade do momento começam a pipocar nas redes sociais uma série de mensagens falando da brevidade da vida, que só temos o presente (eu mesma postei algo nesse sentido no Twitter), que devemos dizer hoje o quanto amamos, que é hoje que precisamos ficar juntos, brincar com os filhos, etc.

Isso é verdadeiro e por um ou dois dias, tocados pela tragédia, vamos fazer isso. Mas logo, logo a rotina vai nos pegar novamente e voltaremos ao piloto automático, na correria sem tempo do dia-a-dia.

Vivemos uma época em que precisamos ser recordados quase que diariamente do que é realmente importante. Precisamos de tragédias como essa para nos lembrar do valor e da brevidade da vida. Precisamos de vídeos e campanhas para nos lembrar da importância da gentileza, do cuidado e o respeito com o outro, etc. O facebook está repleto de exemplos assim. Recebemos vídeos e mensagens no WhatsApp.

Precisamos ser constantemente lembrados do que é essencial. O ter tem sido tão valorizado, que o ser precisa ser lembrado. Precisamos que nos mostrem a diferença entre ter filhos e ser pai/mãe, entre ter amigos e ser amigo. Precisamos de radares e multas pesadas para saber que as leis precisam ser respeitadas. Precisamos de um dia de conscientização para entendermos que somos todos iguais independentemente da cor da nossa pele ou da nossa orientação sexual.

Todos os dias a morte está nos jornais. Balas perdidas, crimes do tráfico, a fome, a miséria. Crianças cuja infância tem sido perdida pela guerra, pelo fanatismo religioso. Aqui perto ou bem distante as notícias se repetem.

De repente um dia uma imagem, uma cena nos toca mais profundamente. E, como hoje, muita indignação, muita coisa postada na internet. Daqui uns dias a rotina e o esquecimento.

Fica a pergunta: o que é preciso acontecer para que realmente façamos algo de concreto e duradouro? O que é preciso para que, de fato, mudanças ocorram?

Sou otimista por princípio, daquelas que sempre enxergam o copo meio cheio. Acredito que essa mudança começa hoje, comigo e com você escolhendo fazer diferente e renovando essa escolha todos os dias. Escolhendo pessoas e não coisas; o simples em vez do luxo; o perdão em vez da vingança; o respeito em vez da intolerância; a calma em vez da pressa; a proximidade em vez da distância; o ser no lugar do ter; acima de tudo escolhendo a gentileza e o amor.

 

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Análise Corporal da Relação, Comportamento, Geral, Reflexão

UMA PARADINHA FORÇADA

Há alguns dias sofri um pequeno acidente. Nada grave, mas resultou numa clavícula quebrada com direito a cirurgia, placa e pinos. E, como não poderia deixar de ser, foi a clavícula direita! Cá estou eu, com o braço direito imobilizado até o Natal e com algumas reflexões.

Gosto de pensar que todas as crises que passamos, sejam elas pequenas ou grandes, nos trazem algum tipo de aprendizado. Assim sendo, fiquei me perguntando: o que eu preciso aprender nesse momento?

O primeiro aprendizado foi sobre a capacidade de adaptação do ser humano. Em 15 dias já sou capaz de fazer a maioria das coisas com a mão esquerda. Ficam de fora atividades necessariamente executadas com duas mãos como cortar o bife ou amarrar o tênis.

O que me leva ao segundo aprendizado que, na realidade são dois, mas estão muito interligados: pedir e depender. Eu dependo de pessoas para uma série de atividades diárias e me vejo tendo que pedir ajuda em vários momentos, inclusive para estranhos. Somos dependentes por natureza, não podemos tudo sozinhos. Pedir, talvez seja o mais difícil, pois nos faz admitir a nossa necessidade do outro, a nossa fragilidade em algum aspecto. Com todos os anos de terapia e ACR (Análise Corporal da Relação) aprendi a pedir com mais tranquilidade, mas percebo no consultório como para muitos isso é difícil. Pedir expõe a nossa fragilidade e necessidade do outro, tornando-o mais poderoso, pois possui algo que me falta. Para fazer isso com tranquilidade precisamos ter integrado o nosso próprio poder, de tal forma que dar ao outro o poder de nos ajudar não seja ameaçador.

Por melhor que eu esteja com a mão esquerda, estou muito mais lenta. E, por incrível que possa parecer, continuo fazendo tudo o que fazia antes, num ritmo mais tranquilo e ainda tem me sobrado tempo para ficar sem fazer nada!!! O que me leva ao terceiro aprendizado: correria não é eficiência. Por uma serie de circunstâncias estava muito acelerada, correndo feito louca, com uma sensação de urgência. Muitas vezes a ansiedade que isso trazia me tornava atrapalhada, ficava dando voltas em torno do próprio eixo, sem sair do lugar ou produzir de forma efetiva.

Hoje estou mais tranquila, produzindo bem e de forma mais criativa. Sinto-me mais inteira em cada coisa que faço. A vida tem mais qualidade, mais riso, mais harmonia. Minha vida era muito boa, agora está melhor.

Eu lhes digo, diminuam um pouco o ritmo, respirem, olhem em volta e desfrutem das experiências que a vida lhes traz, mesmo as difíceis. Um pouco de incômodo, desconforto, tristeza ou preocupação é inevitável. São esses momentos que nos fazem tomar consciência dos bons momentos. Lutar contra eles é somar mais um problema à uma situação difícil. Vivê-los e procurar extrair algo de positivo é um caminho para o amadurecimento e a felicidade.

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Análise Corporal da Relação, Comportamento, Geral, Reflexão

HOMEM NÃO CHORA

Muitos homens ainda acreditam nisso. Não só que não podem chorar, mas que não podem se emocionar, ter medo, ter sensibilidade, como se essas coisas os tornassem menos “homens”. Pena…

Estou falando de um preconceito que dá às mulheres o direito à fragilidade, ao medo, à emoção e aos homens o direito à força, à coragem, à fortaleza.

Bobagem. Homens e mulheres, ainda que diferentes, têm ambos o direito a sentir e expressar sua força, sua fragilidade, seu medo, sua coragem, sua raiva, seu amor. Ambos sofrem com esses estereótipos.

Outubro foi rosa, novembro é azul!!! E pelos mesmos motivos: conscientizar sobre a importância do autocuidado e da prevenção quando se pensa em câncer. Dessa vez quer se conscientizar os homens sobre a prevenção do câncer de próstata.

Se para algumas mulheres autoexame e prevenção é complicado para muitos homens isso é impossível!! E com isso ficam muito vulneráveis.

A dificuldade começa porque como são vistos como o sexo forte e tal, com um quê de super-herói invencível, pensar na possibilidade da doença é ir contra um princípio básico.

Cuidar-se para os homens é um conceito relativamente novo. Até pouco tempo atrás isso passava pela prática de esportes (o que ia de encontro ao princípio do herói ágil e forte) e idas ao barbeiro (reduto masculino por excelência). Hoje isso mudou. Homens e mulheres se encontram no salão sem problema. Homens não vão apenas para cortar o cabelo, mas fazem pedicure, manicure, tintura e depilação. Isso sem que sua masculinidade seja ameaçada ou questionada. Ótimo!

Mas quando a questão é ir ao médico para fazer exame de próstata as coisas ainda continuam difíceis. Preconceito diretamente ligado à sexualidade masculina, envolto no fantasma da homossexualidade. A piadinha geralmente envolve o receio de gostar, se apaixonar pelo médico etc. O assunto é sério e deve ser respeitado, mas não pode ser maior que a saúde, maior que a vida.

Nós mulheres temos um papel importante a desempenhar aqui. Primeiro incentivando nossos maridos, namorados, amantes, pais, amigos, irmãos a irem ao médico e fazerem todos os exames necessários. Ajudando-os a vencer o preconceito.

Segundo é ensinando nossos filhos desde pequenos que eles devem se cuidar, que eles devem se amar a esse ponto. Mostrando a eles que podem ser frágeis e fortes, podem ser corajosos e ter medo, que podem chorar!!!!

Porque, minhas queridas, todo homem machista, que não chora, não respeita a mulher, etc. tem uma mãe!

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UMA DOR MAIOR QUE A COMPREENSÃO

Esses dias me deparei novamente com o luto pela morte. Não a morte que acontece como coisa inevitável pelo passar dos anos, nem mesmo por aquela que não nos parece muito justa por advir de um acidente ou doença. Falo da morte como escolha.

Já escrevi sobre isso. Escrevi sobre a dor maior que a vida que leva a essa escolha. Escrevi sobre a dor de quem vai. Hoje quero escrever sobre a dor de quem fica e que, por mais que entenda, não compreende. Esse é um luto mais complexo…

Quem escolhe partir escolhe nos deixar. Esse luto vem acrescido da dor do abandono. Talvez por isso muitos falem em atitude egoísta. Aliviou a sua dor, mas me deixou com a minha. Não acredito nisso. Penso em dor, desesperança tamanha, maior que o amor por nós. Talvez os egoístas sejamos nós que queremos que o outro suporte algo tão imensamente dolorido para que nós não tenhamos que sofrer.

Penso ainda que essa possa ser uma escolha de amor por nós. Para nos poupar de testemunhar seu sofrimento, de sofrer junto. Para nos libertar de sua dor e nos permitir seguir em frente. Só não nos dão a possibilidade de escolha.

O que me leva a pensar sobre a impotência. A morte sempre nos confronta com nossa absoluta impotência diante dela. Podemos retardá-la, nunca impedi-la. Quando alguém que amamos decide partir também nos confrontamos com a impotência diante da dor. Não pudemos aliviar, curar, ajudar a suportar. Fizemos tudo o que sabíamos e podíamos… não foi suficiente. Desculpe.

A tudo isso é acrescido o silêncio, o tabu. Falar da dor, da perda nunca é fácil, mas quando a pessoa escolheu ir é quase impossível. As coisas não são ditas, são sussurradas. Entendo, mas não ajuda. Nos torna solitários.

Por isso é tão difícil. Resta chorar, seguir a vida… Resta pensar que a pessoa tão amada está livre, não sofre mais. Restam lembranças dos bons momentos, das risadas, da partilha, do amor. Resta a esperança do reencontro…