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março 2017

Criança
Comportamento, Geral, Reflexão

EU ACREDITO NA CRIANÇA!

Todos queremos saúde, ninguém quer estar doente. Quando se trata dos filhos então, mais ainda. Por isso é tão difícil quando se tem algum diagnóstico de um transtorno, de uma síndrome ou doença.

Inicialmente é o choque com a notícia, incredulidade. Não pode ser!! Não está certo!! Vamos buscar uma segunda opinião enquanto nos informamos o máximo possível sobre o assunto. Viva o Dr. Google!

Confirmado o diagnóstico entra-se numa outra fase. É preciso parar de chorar e partir para ação. Buscar toda a ajuda possível, todos os tratamentos, todos os profissionais.

É isso mesmo. É preciso buscar todos os recursos para que a criança possa se desenvolver e superar as dificuldades e limitações que o diagnóstico lhe aponta.

No entanto, é preciso tomar cuidado para que a criança não seja determinada e enxergada somente através de sua doença. Quando fazemos isso corremos o risco de exigir menos do que ela pode ou de encarar qualquer situação como parte do quadro. Recentemente atendendo uma família que se confrontava com um diagnóstico difícil os pais apontaram para o fato do filho não andar de bicicleta. Muitas crianças não andam ou demoram a andar de bicicleta pelos mais variados motivos: não tem uma bicicleta, não tem onde andar, não tem com quem andar ou simplesmente não tem interesse nisso, sem que isso seja um sintoma.

Por conta de minha formação como psicomotricista relacional tenho uma forma um pouco diferente de encarar a situação. Sem desconsiderar o diagnóstico, procuro olhar para a saúde. Toda criança, independente de sua condição, tem um potencial, tem coisas que é capaz de realizar, tem habilidades e potencialidades. É para isso que dirijo meu olhar em primeiro lugar. Quero saber o que ela sabe, o que ela faz e partir daí para ajuda-la a desenvolver-se. É a experiência do sucesso que a fortalece para enfrentar os desafios mais difíceis. Insistir somente no que falta é expor a criança a um histórico de fracassos sucessivos e dificuldades que a levam a questionar a sua capacidade de realizar.

Ao contrário, quando a criança é reconhecida pelas suas habilidades, aumenta sua autoestima e se torna fortalecida e empoderada para enfrentar e superar os desafios.

É preciso tomar cuidado para não encerrar a criança numa patologia, para que o diagnóstico não seja uma justificativa para comportamentos e atitudes.

Recentemente me perguntaram se eu trabalhava com uma determinada patologia. Embora já tenha tido em meu consultório várias crianças com o mesmo diagnóstico, minha resposta foi não. Porque não cuido de patologias, eu cuido de crianças, de pessoas e acredito profundamente que, mais do que dificuldades, elas tem possibilidades, habilidades e é isso que me interessa acima de tudo

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APROPRIAÇÃO CULTURAL

Um dos temas do momento é a Apropriação Cultural. Está em todas as mídias por conta do uso de um turbante por uma moça branca. Tolice.

Nesta mesma semana vi no facebook a história de um menino que pediu para que a mãe cortasse seu cabelo igual ao de seu amigo, pois assim um poderia se fazer passar pelo outro, enganando a professora. O bonito desta história é que um era branco e o outro afrodescendente. A criança não percebia a diferença. Em parte porque é criança, em parte porque o outro é seu amigo e detalhes como a cor da pele não são importantes. O que importa são as brincadeiras, as risadas, tudo o que partilham.

Somos todos seres humanos e cidadãos e como tal temos que ter nossos direitos respeitados e sermos tratados com dignidade.

Infelizmente nós, seres humanos, somos preconceituosos. Tudo o que é diferente acaba por causar estranheza e parece ameaçador.

Ninguém deveria ser discriminado por sua cor, raça, orientação sexual, religião ou o qualquer outra coisa. Ações afirmativas foram importantes em vários momentos da história para dar visibilidade a questão e corrigir os erros.

No entanto, o fato, por exemplo, de eu proibir o uso de determinadas palavras, etc. não elimina o preconceito. Ele continua existindo, só não se manifesta. Não por respeito real, mas por medo da punição.

No artigo da semana passada falei sobre um sentimento em relação ao uso da palavra luta em relação as reivindicações das mulheres por mais respeito aos seus direitos e à sua dignidade.

O mesmo acontece aqui. Quando lutamos contra o preconceito colocamos o outro como inimigo. Ele vai se defender e, para muitos, o ataque é a melhor defesa.

Quanto mais nos aproximarmos uns dos outros, nos conhecermos, menor será o preconceito. Quando conhecemos a pessoa, coisas como sua raça, cor, religião e preferencias sexuais não importam. Porque o afeto é direcionado à pessoa. Ele se torna conhecido e não me gera preconceito. Ele passa a ser um igual, ainda que diferente.

Em vez de lutar, vamos ensinar, vamos mostrar para o outro a nossa cultura, a nossa singularidade. Vamos deixa-lo experimentar. Que ele se aproprie, que ela se torne dele também. Assim as diferenças deixarão de ser importantes ou ameaçadoras.

O desconhecido pode ser ameaçador, o conhecido não. Ensinar, conviver é a chave. Educação, educação, educação.

 

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Comportamento, Geral, Reflexão

CHEGA DE “MIMIMI”!

Fui convidada para fazer uma palestra para mulheres em comemoração ao seu dia. O tema era a Saúde Emocional da Mulher. Preparando a palestra fiz algumas reflexões e quero compartilhar duas com vocês.

Nós mulheres assumimos diversos papéis em nossa vida adulta. Somos filhas que, muitas vezes, passamos a cuidar de nossos pais fragilizados pela idade. Somos mães, tarefa ao mesmo tempo gratificante e desafiadora. Somos namoradas, companheiras, esposas e cuidamos dessa relação de amor. Somos donas de casa, e falo aqui não como um fardo, mas como um cuidado com o lar que construímos para nós mesmas e nossa família. Somos profissionais enfrentando os desafios diários de um mercado competitivo e, no Brasil, a maior parte do tempo em crise. Somos amigas e na cumplicidade feminina construímos a rede de afeto que nos acompanha nos momentos bons e difíceis. Vivemos nossa espiritualidade, buscando na fé a força e a inspiração que precisamos. Somos mulheres que, por força da época em que vivemos, precisamos ser magras, saradas, sempre bonitas e cheirosas, sensuais, desejantes, vivendo a sexualidade plenamente.

Ufa! É bastante coisa. E nos queixamos. Fiz isso nesse final de semana pós-carnaval. Viajei e na volta tinha que preparar três aulas, a palestra da qual estou falando, alguns critérios de avaliação para um projeto que estou desenvolvendo, acertar a contabilidade, cuidar dos meus cachorros, etc., tudo num fim de semana. Teve um momento que me desesperei e pensei que não ia dar conta. Não sabia por onde começar.

Nessa hora me veio a mente o filósofo brasileiro Luis Felipe Pondé e a expressão que, se ele não cunhou, utiliza frequentemente “mimimi”. Pensei: chega de mimimi Luiza!!! Você sabe que de um jeito ou de outro você vai dar conta de tudo (e dei) e, além do mais, foram suas escolhas!!! Você tem três aulas para preparar porque aceitou a tarefa e adora isso. Tem que preparar a palestra porque você aceitou o convite, honrada com a oportunidade de compartilhar sua experiência e aprender com outras mulheres. O projeto é algo que você está criando, é um sonho seu!!! Você tem contas para pagar porque tem casa, carro, etc. Tem que passear os cachorros porque você adora estar com eles. Essa é a vida que você escolheu para você.

Precisamos parar de nos queixar tanto. Nós assumimos tanta coisa porque damos conta. Somos multitarefa. Claro que ajuda e divisão de tarefas são bem vindas, mas se não vierem, nós damos conta. E precisamos parar de reclamar e nos orgulharmos disso.

A segunda reflexão veio de um vídeo que recebi onde certa senadora conclamava as mulheres a uma greve geral, inclusive de sexo. Patético. Mas fiquei pensando na questão da luta das mulheres! Sou absolutamente a favor que, como seres humanos e cidadãs, tenhamos os mesmos direitos que os homens. Isso não se discute. No entanto, me incomoda o termo luta. Porque se lutamos é contra algo ou alguém. Isso é colocar os homens como inimigos. E se estamos em luta, eles também estarão. Eu prefiro aliança, parceria, cumplicidade. Prefiro uma construção em equipe. Porque numa luta, alguém sairá derrotado e a partir daí é mais difícil um relacionamento amigável, colaboração.

Mulheres e homens são diferentes anatômica, fisiológica, bioquimicamente. No que somos iguais cidadania e humanidade quero igualdade. No que somos diferentes quero respeito e complementariedade. Nós mulheres podemos lutar, sabemos fazer isso quando necessário e, para defender o que é importante para nós, viramos verdadeiras feras. Mas temos uma outra forma de conseguir o que queremos que é através do diálogo, da ternura, do afeto. Prefiro a segunda.

Não somos nem mais, nem menos. Somos diferentes. Mas juntos mulheres e homens são muito mais, são a parceria perfeita idealizada pelo criador.